Jornal Pires Rural - 10 anos de fatos

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Caminho da Fé

O caminho da Fé, idealizado por Almiro Grings é de aproximadamente 400 km, saindo de Tambaú, SP até o Santuário de Aparecida, SP, atravessando a serra da Mantiqueira no sul de Minas Gerais por estradas vicinais de terra, trilhas, bosques, pastagens e asfalto. O objetivo é proporcionar às pessoas momentos de reflexão e fé, saúde física e psicológica através do exercício da caminhada, integração do homem com a natureza.
O caminho envolve 19 municípios e 4 distritos com pontos de apoio. São necessários aproximadamente 16 dias, fazendo uma média de 25 km/dia para percorrer todo o Caminho. Durante todo o trajeto, o peregrino se hospeda em pousadas credenciadas pela Associação de Amigos da Fé, que oferece a credencial do peregrino cadastrado (carimbado pelos pontos de apoio para na Basílica receber o certificado de participação como Peregrino no Caminho da Fé). Aos municípios por onde passa à rota, a meta é propiciar maior integração regional, desenvolvimento sustentável com geração de novos empregos e oportunidades.
Adilson Ruy sempre foi devoto de Nossa Senhora Aparecida, sua mãe Ignez Campos Ruy, devota fervorosa, mãe de três filhos suplicava em nome dos filhos para que a Santa rogasse pela saúde dos mesmos e que os livrasse da Paralisia Infantil. Seus filhos foram abençoados e Adilson aprendeu com a graça recebida agradecer todos os dias de sua vida.
Já havia participado duas vezes de romaria até Aparecida com a Comunidade do Divino Espírito Santo. O hábito de caminhar sozinho nos finais de semana o levou a lançar um desafio para si próprio, percorrer o caminho da Fé com o objetivo de assistir a missa do Santo Papa Bento XVI na Basílica de Nossa Senhora Aparecida no dia 13 de maio/07.
“Para percorrer o Caminho da Fé, é preciso ter resistência física, eu caminhava 15 km por dia nos finais de semana. A fé não é o suficiente, tampouco o entusiasmo. As paisagens arejam a mente, acalma, mas é repetitivo. Você dorme e acorda pensando em caminhar, a chegada só depende de você, mais ninguém. Sozinho, o desafio é não saber o que encontraremos pela frente, é preciso determinação e coragem”, conta Adilson.
Com uma bagagem pesando 7k, a camiseta identificando: de Tambaú à Aparecida ao encontro de Bento XVI (cuidado da esposa Elide Poletti Ruy), Adilson percorreu um dos caminhos mais importantes de sua vida, reavaliou, superou limites e desafios, conheceu pessoas, foi acolhido, encontrou paz espiritual, sofreu mudanças de valores, rezou por si e pelos outros, sentiu dores, ajudou o próximo e passou a acreditar muito mais nos homens perante Deus.
A própria companhia
“Caminhar 24 km sem encontrar alguém. Ouvindo o canto dos pássaros, o vento, os animais na estrada. É a hora do questionamento. Foi um dos trajetos onde encontrei maior fortalecimento, é você com você mesmo, essa é a diferença do Caminho da Fé sozinho”, afirma.


Acolhimento
Por onde passou Adilson foi acolhido, nas residências como ponto de apoio as famílias simples oferecem o que têm de melhor e dispensam toda atenção para o peregrino como convidado de honra. Na estrada os agricultores gritam seus nomes para que os peregrinos rezem pelos mesmos. “Fui bem recebido em todos os pontos de apoio por onde passei, recebido como um membro da família. Na casa de Dona Ditinha, a família estava de luto, a filha acabara de dar à luz (solteira), a família mesmo passando por uma série de problemas me recebeu com muito carinho. Cheguei à noite noutra residência (ponto de apoio) e a dona da casa não estava esperando peregrinos e não tinha comida suficiente para todos, então a dona da casa nos deu a chave do carro para irmos até a cidade comprar comida”, conta.  
Encontros marcados pela Fé
Adilson encontrou vários peregrinos pelo caminho como três casais e um Senhor de 62 anos de idade, todos com a experiência do Caminho de Santiago de Compostela, Espanha, os quais revelaram que o caminho de Santiago “é um museu a céu aberto, com suas arquiteturas milenares”, já no caminho da Fé a natureza tem um papel muito mais importante. Mas o jovem Eduardo foi o companheiro que percorreu grande parte do percurso. “Uma pessoa que está acostumada a praticar esportes, a correr, e passou por muitas dificuldades físicas, dor mesmo. Deus me protegeu, eu não tive dor. Desde o início ficou claro que o meu sofrimento era suportável e eu tinha dificuldades que podiam ser superadas e foi. Muitas vezes eles queriam desistir por estarem muito machucados, e o meu papel era de ajudá-los a superar a dor e ter fé, mas muitas vezes a ansiedade de atingir o objetivo (chegada) pode nos atrapalhar”, conta.
Súplica


Em Topos do Mogi (início do Rio Mogi), uma região marcada por subidas e descidas íngremes (a 22 km do próximo município, 4 km de caminhada), o Eduardo estava precisando se apoiar muito para poder caminhar e muito comprometido pelos ferimentos, toda aquela situação estava me envolvendo muito porque eu queria fazer algo que pudesse ajudá-lo a superar e seguir, era importante para mim que ele também conseguisse atingir o seu objetivo. Foi naquele momento que eu entrei na igreja e foi muito forte, pedi para que Nossa Senhora “carregasse” o Eduardo porque aquele trecho seria um dos lugares mais bonitos do Caminho. Quando eu saí da igreja eu não o encontrei. Ele havia conseguido andar novamente mesmo machucado. Quando eu o encontrei ele me falou: “Alguma coisa aconteceu quando você estava na igreja”, conta emocionado.
A chegada

“Eu não sabia se chorava, agradecia. A sensação de ter atingido o objetivo depois de meses de planejamento e poder assistir a celebração de Sua Santidade o Papa e estar no mesmo local é uma sensação inexplicável. Cada vez mais eu tenho certeza de que os desafios que ocorrem na minha vida seja no trabalho, na família, na vida pessoal, eu vou enfrentar, porque viver é um desafio e temos que estar preparados pra isso. As imagens do Caminho da Fé se fazem presentes todos os dias, porque todos os dias um peregrino está acordando para andar. Todo o trajeto do Caminho teve um forte significado de conceitos na minha vida. Hoje eu enfrento as dificuldades diárias com muito mais coragem, menos ansiedade, e muita ponderação do que realmente vale a pena pra mim.” conclui. 


Matéria publicada originalmente na edição 46 Jornal Pires Rural, 15/06/2007-www.dospires.com.br]
Em comemoração aos 10 anos do início do Jornal dos Pires, logo acrescentado o Rural, tonando-se Jornal Pires Rural, estaremos revendo algumas das matérias que marcaram essa década de publicações, onde conquistamos a credibilidade, respeito e sinergia com nossos leitores e amigos. 
Quase sem querer iniciamos um trabalho pioneiro para a área rural de Limeira e região, fortalecendo e valorizando a vida no campo, que não é mais a mesma desde então…

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